Analista de investimento
A Venezuela voltou a ocupar as manchetes do mundo — e pelos mais diversos motivos. Na última semana, o presidente americano Donald Trump decidiu colocar um ponto final, de forma definitiva, ao governo de Nicolás Maduro, encaminhando-o, junto de sua esposa, sob custódia para julgamento em Nova York.

Entre as acusações, o narcotráfico ganha maior destaque. Ainda assim, cresce a especulação sobre uma motivação não declarada: o controle das imensas reservas de petróleo venezuelanas.
O que isso significa para o mercado de petróleo e quem ganha com tudo isso?
Antes de analisar os impactos dessa decisão, é necessário voltar no tempo.
Entre 1910 e 1920, a Venezuela ainda era um país pobre, essencialmente agrário. Esse quadro começou a mudar com a descoberta de grandes reservas de petróleo sob o Lago Maracaibo e nas planícies orientais. Naturalmente, o país passou a atrair investimentos estrangeiros. Com o aval de governantes como Juan Vicente Gómez, empresas petrolíferas internacionais passaram a explorar esses recursos — não em tom pejorativo, mas dentro da lógica econômica da época — em troca de royalties e impostos.

Já em 1940, sob o governo de Isaías Medina Angarita, o modelo foi reformulado, principalmente com o aumento da carga tributária sobre o setor, sem, contudo, romper os laços com os Estados Unidos. Em 1945, Medina foi deposto, dando início a um período de instabilidade política que se estenderia por décadas, sem qualquer intervenção direta dos EUA, que adotaram uma postura de observação.
O grande divisor de águas ocorreu em 1976, durante o governo de Carlos Andrés Pérez, quando a indústria petrolífera foi nacionalizada, dando origem à Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA). Apesar da nacionalização, a empresa foi inicialmente bem administrada, contando com gestores treinados no Ocidente, o que resultou em um período de relativo sucesso operacional.

Entre as décadas de 1980 e 1990, porém, o cenário começou a se deteriorar. A queda no preço do petróleo pressionou as contas públicas, a dívida aumentou e a má gestão tornou-se cada vez mais evidente. É nesse contexto que surge Hugo Chávez, que ascende ao poder canalizando o descontentamento popular com a desigualdade social, a influência estrangeira e a percepção de que os recursos naturais estavam sendo “entregues” aos interesses americanos.
Ainda assim, Chávez não expulsou imediatamente as grandes petrolíferas. Durante boa parte de seu governo, Chevron e Exxon Mobil continuaram operando no país, especialmente na produção de petróleo pesado, típico da região. As relações diplomáticas, no entanto, se deterioravam rapidamente.
Entre 2006 e 2007, Chávez exigiu que os projetos no Cinturão do Orinoco fossem convertidos em joint ventures, com a PDVSA detendo participação majoritária de 60%. Algumas empresas recusaram os novos termos. A Exxon Mobil teve seus ativos nacionalizados após rejeitar o acordo, assim como a ConocoPhillips. Ambas recorreram à arbitragem internacional e, posteriormente, venceram os processos.
Uma empresa, contudo, seguiu por um caminho diferente: a Chevron. A companhia aceitou os termos e permaneceu operando na Venezuela durante o governo Chávez. À época, as sanções americanas ainda eram relativamente restritas, concentradas sobretudo em questões militares, sem impacto econômico relevante sobre o setor petrolífero.

Esse quadro muda de forma decisiva com a morte de Chávez e a ascensão de Nicolás Maduro. As relações com os Estados Unidos se rompem de vez, e o foco das sanções passa a ser o setor de petróleo. Navios suspeitos de transportar petróleo venezuelano passaram a ser ameaçados de apreensão, negados por seguradoras ou barrados em portos internacionais. Desde então, o petróleo venezuelano passou a circular em uma espécie de “dark web do petróleo”, com compradores majoritariamente asiáticos.
E a Chevron? A empresa recebeu uma licença especial do Tesouro dos EUA que lhe permite produzir e exportar petróleo venezuelano, mas sob condições bastante restritivas. A Chevron só pode operar em projetos já existentes em parceria com a PDVSA, sem a possibilidade de novos investimentos. Mais importante: sua operação só é permitida desde que não beneficie financeiramente o governo venezuelano. Na prática, isso significa que a Chevron é remunerada em petróleo, e não em dinheiro — uma compensação por anos em que a PDVSA não conseguiu arcar com sua parte nas joint ventures.
Chegamos, então, ao início de 2026 e à decisão de Trump de encerrar o governo Maduro. Qual o impacto disso sobre o mercado de petróleo?
No curto prazo, é limitado. Embora a Venezuela detenha a maior reserva de petróleo do mundo — cerca de um quinto do total global — isso não se traduz em oferta relevante. A infraestrutura do país está profundamente deteriorada e, sob o governo Maduro, a produção caiu drasticamente. Se durante o governo Chávez a Venezuela respondia por cerca de 3,5% da oferta global, hoje esse número está abaixo de 1%. Em um mercado atualmente marcado por excesso de oferta, a OPEP é plenamente capaz de compensar essa lacuna.
Isso não significa que os preços não possam oscilar no curto prazo, mas tais movimentos seriam impulsionados mais por expectativas e movimentos geopolíticos do que por mudanças reais na oferta e demanda de petróleo.
No médio e longo prazo, porém, o cenário pode ser diferente. Com um governo alinhado aos Estados Unidos, as grandes empresas de upstream podem voltar a considerar investimentos no país. Não pelo petróleo em si, mas pela segurança jurídica — fator essencial em um setor que exige investimentos elevados e de longo prazo.
Caso Trump seja bem-sucedido em consolidar essa mudança política sem gerar uma insurgência interna e consiga convencer as empresas americanas a investir novamente na Venezuela — algo em que ele historicamente demonstra habilidade, especialmente por meio do seu grande instrumento chamado tarifas —, poderíamos observar um aumento estrutural da oferta global, pressionando os preços da commodity.
E quem é a maior vencedora desse processo?
A resposta é clara: a Chevron. Por ter permanecido no país, evitando a estatização de seus ativos, e por ser hoje a única empresa americana ainda operando na Venezuela, ela parte de uma posição incomparavelmente superior à de suas concorrentes. Não é preciso dizer muito mais para concluir que a Chevron é a companhia melhor posicionada para capturar os benefícios de um eventual fim do governo Maduro e o início de uma nova era política no país.
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